ORIENTE-se... O que acontece quando os opostos se encontram?
Aleí dos Santos Lima
Culinária, moda, comportamento... Elementos que sofreram alterações e/ou adaptações a partir do processo de trocas culturais com a presença dos/as imigrantes japoneses/as no Brasil. Nesse sentido, o presente texto busca compartilhar alguns resultados da oficina O jeito japonês de ser brasileiro/a: a imigração japonesa no município de Taperoá: BA, com base nas diferentes metodologias utilizadas no desenvolvimento desse projeto.
É importante destacar que entendemos a oficina enquanto lugar de produção, manufatura, construção e reconstrução, onde, no sentido prático do termo, “se põe a mão na massa”. E assim fizemos ao articularmos o ensino de história à gastronomia e à arte japonesa como maneira de favorecer o entendimento desse intercâmbio cultural através de uma experiência lúdica. Em todas as atividades propostas, valorizamos como ponto de partida, as impressões iniciais do público alvo (alunos e alunas do 1º Ano do Ensino Médio, do Colégio Modelo da cidade de Santo Antônio de Jesus) acerca dos orientes e, especificamente, do universo japonês.
Ensinar História é trabalhar com identidades e, por que não com a formação de sujeitos que desempenham distintos papéis na vida e na sociedade. Portanto, é imprescindível a promoção de propostas pedagógicas que integrem a reflexão com a ação de forma atraente, didática e contextualizada com a realidade dos educandos. Na nossa experiência, valorizar o conhecimento espontâneo dos/das aluno/as através da elaboração de mapas mentais se constituiu como meio de relacionar os acontecimentos cotidianos com o conhecimento cientifico da temática sob análise.
Num primeiro momento, discutir o processo da imigração japonesa no Brasil e na Bahia, especificamente em Taperoá, gerouestranheza por parte dos alunos, pois as contribuições das diferentes sociedades do Oriente para a história mundial, por vezes, lhes eram apresentadas de maneira exóticas e fantásticas, na opinião dos mesmos. No entanto, os recursos utilizados possibilitaram a participação e assiduidade do aluando nas aulas e, conseqüentemente resultados bastante significativos em relação ao seu aprendizado.
Concluímos que a oficina é uma realidade complexa que exige planejamento e dedicação, mas que pode ser muito bem empreendida na perspectiva da educação histórica. Podemos afirmar que o nosso trabalho oscilou entre o diferente e o apaixonante seja pelas provocações que envolvem o tema escolhido ou mesmo pela inquietude de mesclar ensino-aprendizagem com atratividade.
“O JEITO JAPONÊS DE SER BRASILEIRO (A)”: reflexões acerca de uma experiência de oficina pedagógica em História.
Daniela Watanabe
A experiência que trazemos para reflexão no presente texto diz respeito à oficina pedagógica O jeito japonês de ser brasileiro/a,realizada entre os dias 09 e 12 de novembro de 2009, cuja proposta foi discutir a imigração japonesa no território nacional, priorizando a experiência desse processo no município de Taperoá-BA, por volta da segunda metade do século XX. Planejamento, pesquisas e muita dedicação foram fundamentais para a concretização desse ousado projeto. Com a finalidade de realizar uma transposição didática de forma mais atraente e significativa - além das aulas no ambiente escolar - foi desenvolvida uma aula de campo, que se configurou como um momento especial do nosso estágio.
Assim, a preocupação constante no planejamento das aulas foi pensar numa proposta de ensino que instigasse a curiosidade dos/as discentes e, dessa maneira, tornasse mais fluente a compreensão do conteúdo abordado. A especificidade da temática e a resistência que se percebe em relação ao ensino de história foram problemáticas que influenciaram de modo preponderante as nossas escolhas, sobretudo porque os acontecimentos discutidos envolviam, diretamente, a história de dois países – Japão e Brasil. Desse modo, a aula de campo foi uma estratégia metodológica extremamente rica para nossa oficina, uma vez que possibilitou uma multiplicidade de saberes e abordagens que foram além do planejamento inicial; foi como se o conhecimento se tornasse mais concreto, mais próximo, mais “vivo”.
As experiências oriundas dessa oficina, não somente em relação à visita de campo como também às outras metodologias utilizadas - oficina gastronômica, mostra de filme, aulas expositivas, entre outras – nos sugere que é possível ensinar/aprender história a partir de diferentes aspectos e não somente sob as “convencionais” análises político-econômicas. As discussões, por exemplo, sobre as relações de gênero– com ênfase nos papéis sociais das mulheres nipônicas - e as transformações e permanências dessa dimensão cultural após a imigração para o Brasil ressoaram de maneira significativa sobre alguns estereótipos que os/as alunos/as possuíam acerca das japonesas e nipo-brasileiras. As linguagens dos comportamentos dessas orientais foram analisadas considerando a imigração como elemento de transformações culturais, uma vez que os modos de ser de muitas nipônicas foram alterados em contato com os costumes brasileiros. Foi possível, assim, reavaliar os imaginários relacionados ao exótico, à obediência, atribuídos a essas mulheres, a partir do contato direto (durante a aula de campo) com algumas japonesas que vieram para o Brasil e, em função das circunstâncias, tiveram que adaptar seus costumes. Esse momento de troca de experiências com as nipônicas residentes em Taperoá-Ba deu um sentido singular às nossas abordagens e ao entendimento dos/s discentes, ao articular o ensino sistemático às diferentes histórias de pessoas anônimas para os livros, mas, que de alguma maneira contribuíram para que tivéssemos acesso a um trecho da história da imigração japonesa na Bahia, que é tão pouco divulgada.
TEXTO: 1
A presença japonesa em Taperoá-BA[1]
Taperoá é um dos municípios que compõem a microrregião do Baixo Sul da Bahia, na Costa do Dendê. Trata-se de um pequeno ponto no mapa baiano com uma extensão territorial 410.175 Km² na qual, segundo o IBGE, está distribuída uma população de 18.000 habitantes. A formação étnica desse município tem contribuições dos povos ameríndios, dos negros, e, minoritariamente, de irlandeses, portugueses e japoneses.
A influência nipônica é, entretanto, mais recente em relação às demais culturas, sendo que a primeira família japonesa a se instalar em terras taperoenses chegou em 1972. Tal evento veio a se repetir com a chegada de outras famílias, que se deslocaram de Tomé-Açu, no Pará – onde a produção da pimenta-do-reino, seu principal produto, estava em decadência - movidas por promessas de melhoria de vida nas terras “férteis” do interior baiano.
Assim como os pioneiros da imigração japonesa no Brasil, que com sonhos de reconstituição de suas vidas se propuseram a trabalhar nas distantes terras tropicais, estas com valores, cultura e clima bastante distintos dos seus, os “nipônicos nascidos no Brasil” também se lançaram ao desafio de buscar melhores condições de vida, mas, no próprio território brasileiro.
Entre os anos de 1974 e 1975 chegaram a esse município, cerca de trinta e cinco famílias japonesas, fato que influenciou a vida social, cultural e agrícola local. Com a finalidade de manterem vivos os traços da sua cultura no interior baiano, é criada na década de oitenta a Associação Nippo-Brasileira de Taperoá. Tal organização permitia aos nipônicos reunirem-se para momentos de lazer bem como para construírem estratégias de melhorias para suas vidas.
A diversificação das técnicas para o cultivo da terra foi uma das principais contribuições dos japoneses e japonesas para Taperoá. Nesse particular, destaca-se ainda a inserção de outras culturas agrícolas, a exemplo da pimenta-do-reino, da pimenta-jamaica, do cupuaçu, do rambutã, do mangostão, entre outras.
[1] WATANABE, Daniela Lumi N. Graduanda em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V. A influência nipônica na experiência camponesa no município de Taperoá-Ba, na primeira metade da década de 1970. Projeto de Pesquisa. Agosto de 2009.
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