Esse blog é resultado do trabalho realizado no Estágio de Oficina, coordenado pela professora Vânia Vasconcelos e desenvolvido pela turma do 6º semestre de História da UNEB / Campus V, em 2009.2. A criação de um espaço de socialização das produções das oficinas visa proporcionar a troca de experiências com diferentes metodologias que possibilitem o aprendizado dos mais diversos temas da História.

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Carnaval e as Reinvenções da Folia

Eduardo Maia Júnior¹

O carnaval revela-se, senão a maior, uma das maiores manifestações populares do mundo, se caracteriza por sua grande heterogeneidade cultural, o que o torna, por si só, um fenômeno que desencadeia sempre em gigantescas quebras nas relações tradicionais de homens e mulheres. O carnaval ressignifica os moldes sociais; durante a festa os signos se refazem, as regras são transgredidas, a cidade se reinventa, diferentes estados socioculturais se entrelaçam em meio à alegria e euforia comuns à festa.

As manifestações carnavalescas, em especial da cidade do Salvador, nos serviu de inspiração para a construção da oficina temática “Do entrudo ao trio elétrico: o carnaval brasileiro, suas práticas e representações”, no cumprimento das exigências da disciplina Estágio Supervisionado III regida pela Professora Vânia Vasconcelos. A nossa idéia foi analisar criticamente a festa carnavalesca, a partir de imagens (vídeos e iconografias), desde os entrudos e os bailes nobres até o carnaval burguês do início do século XX que desencadeiam na indústria carnavalesca vigente nos dias atuais. O interessante de ter trabalhado este tema em sala de aula, é que ele se configura num assunto representativamente popular, o que nos possibilitou uma maior facilidade em fazer comparativos pertinentes entre a visão comum que se têm destas manifestações carnavalescas – que são alicerçadas geralmente em um tempo presente, sem grandes análises de como estas se configuravam no passado – e uma análise calcada nas várias transformações socioculturais ocorridas durante o tempo histórico.

O público inscrito na oficina fora formado por universitários. Estavam presentes na sala desde estudantes de humanas; inglês, espanhol e história, até estudantes da área de exatas, o que nos trouxe um leque de discursos bastante variado. Procuramos por meio dos vídeos e figuras iconográficas identificar elementos que nos revelassem curiosidades acerca dos costumes e valores que caracterizavam a festa em cada um dos períodos apresentados, sempre comparando os diferentes tempos históricos. O público em geral contribuiu bastante nas discussões, sempre auxiliando no andamento do trabalho. Vale-se ressaltar que a cidade do Salvador serviu como chave principal para as discussões, mas foram citados também outros centros carnavalescos como Rio de Janeiro( um dos maiores comparativos durante toda oficina) e o Estado do Recife.

As permanências e continuidades históricas, no que tange aos comportamentos humanos durante o período das manifestações carnavalescas, foram bastante discutidas. Os valores religiosos e político-sociais que com o passar do tempo mudaram a cara da festa, a indústria do turismo sexual, a falsa democracia racial que se permeia com maior ênfase ideológica durante o carnaval da cidade do Salvador, a forma como as relações étnicas e de gênero se configuram dentro dos espaços carnavalescos, os mitos do carnaval, a indústria do sexo, a resistência de alguns grupos étnicos, antes minoritários, que hoje ocupam lugares de excelência dentro destes espaços e, principalmente, a forma como tudo isso influencia a sociedade no cotidiano de suas práticas sociais.

Ressignificando a idéia de que o carnaval na Bahia se limita apenas aos espaços mais tradicionais e institucionais da festa, nos preocupamos, também, em traçar uma linha histórica sobre os espaços alternativos da folia, observando que desde a década de setenta são introduzidos novos elementos, inspirados por artistas de vanguarda como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Novos Baianos, que trarão a partir dali novos significados e novos espaços para o centro dos festejos. Nos dias atuais tudo isso é refletido nos vários palcos alternativos que são instalados no circuito da festa, onde se pode prestigiar artistas antes não muito comuns à estética carnavalesca. Isso irá dar um sentido maior ao multipluralismo que norteiam os signos do carnaval.

Penso que a importância de se trabalhar um tema como esse em sala de aula está perceptível na forma como podemos entender as relações sociais a partir do mesmo; como os valores morais, religiosos, políticos e humanos se configuram em determinadas instâncias da festa e até onde estas reinvenções de valores interferem no cotidiano das sociedades fora desses espaços. Percebe-se também que os interesses político-sociais, que por trás da folia, erguem-se travestidos de seus investimentos midiáticos, envolvem cada vez mais a festa carnavalesca, que em seu surgimento mais remoto servia apenas para animar o povo, numa divertida brincadeira sob os olhos do Estado.

[1] Maia Júnior, Eduardo Carlos Ferreira. Graduando em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V. 2010.

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