Esse blog é resultado do trabalho realizado no Estágio de Oficina, coordenado pela professora Vânia Vasconcelos e desenvolvido pela turma do 6º semestre de História da UNEB / Campus V, em 2009.2. A criação de um espaço de socialização das produções das oficinas visa proporcionar a troca de experiências com diferentes metodologias que possibilitem o aprendizado dos mais diversos temas da História.

Convidamos você a navegar por essas imagens e idéias na perspectiva de construir alternativas para o ensino da História. Comente, critique, sugira... enfim... participe!

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segunda-feira, 12 de abril de 2010

"DO ENTRUDO AO TRIO ELÉTRICO: O CARNAVAL BRASILEIRO, SUAS PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES"

Do Entrudo ao Trio Elétrico

Rafael Lima Silva Soares¹

A oficina “Do entrudo ao trio elétrico: o carnaval brasileiro, suas práticas e representações”, foi um grande desafio que rendeu diversos esforços tanto na sua programação e planejamento quanto na sua execução. A dificuldade da tarefa se dava não só aos estudos aplicados a história do carnaval da Cidade do Salvador, ou sobre o carnaval enquanto tradição de diversas culturas humanas, como também na confecção dos e no planejamento referente à quais materiais didáticos utilizar para a discussão desejada.

Essa oficina referente ao carnaval da cidade do salvador tinha como objetivo principal, de certa forma, mostrar as manifestações culturais carnavalescas em meio às tensões de grupos e classes que formaram a sociedade soteropolitana ao longo dos séculos 19 e 20. É obvio que para alcançar as manifestações culturais desses grupos, bem como as complexas relações de classe, gênero e etnia que cercavam os cidadãos foliões foi necessária uma sensibilidade para os problemas sociais mais comuns como o racismo, a má distribuição de renda, a falta de acesso a saúde e educação, etc. Diferenças essas que, muito embora o carnaval pareça ser uma festa inocente e desregrada, permeiam e norteiam a festa. Dessa forma o ponto principal do trabalho foi demonstrar como uma sociedade dotada de contrastes transmite essas diferenças sociais grupos para a festa.

Passear sobre a história do carnaval juntamente com nosso público alvo (estudantes do ensino superior) foi uma experiência interessante, pois a partir da reflexão para com os acontecimentos e ações desses grupos de foliões e de como a festa acontecia foi possível perceber alguns processos que ainda estão presentes em nosso dia a dia, em nossas festas e que, ainda, coadunam com o jeito de nossa sociedade de pensar, agir e curtir a folia. Também foi dado muito destaque as diferenças, mudanças de representações ou atitudes que encontraram seu fim devido a mudanças culturais religiosas ou politicas

A participação da turma de alunos foi perfeita, sendo estudantes de várias áreas do conhecimento diferentes como história, geografia, letras (estrangeiras e vernáculas) e até matemática tiveram a perspicácia de relacionar o conteúdo de cada aula com suas experiências pessoais e diversos outros assuntos. A atenção foi ainda maior, talvez, por termos utilizado musicas, jornais antigos e, principalmente imagens. Todas as aulas foram ministradas através da analise de imagens de época, ou seja, jornais, revistas, pinturas e até fotografias. Esse tipo de linguagem, junto com a musica ajudou-nos muito a alcançar cativar e ouvir as idéias e analises de cada um participante da oficina.

[1] Soares, Rafael Lima Silva. Graduando em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V. 2010.

O Carnaval e as Reinvenções da Folia

Eduardo Maia Júnior¹

O carnaval revela-se, senão a maior, uma das maiores manifestações populares do mundo, se caracteriza por sua grande heterogeneidade cultural, o que o torna, por si só, um fenômeno que desencadeia sempre em gigantescas quebras nas relações tradicionais de homens e mulheres. O carnaval ressignifica os moldes sociais; durante a festa os signos se refazem, as regras são transgredidas, a cidade se reinventa, diferentes estados socioculturais se entrelaçam em meio à alegria e euforia comuns à festa.

As manifestações carnavalescas, em especial da cidade do Salvador, nos serviu de inspiração para a construção da oficina temática “Do entrudo ao trio elétrico: o carnaval brasileiro, suas práticas e representações”, no cumprimento das exigências da disciplina Estágio Supervisionado III regida pela Professora Vânia Vasconcelos. A nossa idéia foi analisar criticamente a festa carnavalesca, a partir de imagens (vídeos e iconografias), desde os entrudos e os bailes nobres até o carnaval burguês do início do século XX que desencadeiam na indústria carnavalesca vigente nos dias atuais. O interessante de ter trabalhado este tema em sala de aula, é que ele se configura num assunto representativamente popular, o que nos possibilitou uma maior facilidade em fazer comparativos pertinentes entre a visão comum que se têm destas manifestações carnavalescas – que são alicerçadas geralmente em um tempo presente, sem grandes análises de como estas se configuravam no passado – e uma análise calcada nas várias transformações socioculturais ocorridas durante o tempo histórico.

O público inscrito na oficina fora formado por universitários. Estavam presentes na sala desde estudantes de humanas; inglês, espanhol e história, até estudantes da área de exatas, o que nos trouxe um leque de discursos bastante variado. Procuramos por meio dos vídeos e figuras iconográficas identificar elementos que nos revelassem curiosidades acerca dos costumes e valores que caracterizavam a festa em cada um dos períodos apresentados, sempre comparando os diferentes tempos históricos. O público em geral contribuiu bastante nas discussões, sempre auxiliando no andamento do trabalho. Vale-se ressaltar que a cidade do Salvador serviu como chave principal para as discussões, mas foram citados também outros centros carnavalescos como Rio de Janeiro( um dos maiores comparativos durante toda oficina) e o Estado do Recife.

As permanências e continuidades históricas, no que tange aos comportamentos humanos durante o período das manifestações carnavalescas, foram bastante discutidas. Os valores religiosos e político-sociais que com o passar do tempo mudaram a cara da festa, a indústria do turismo sexual, a falsa democracia racial que se permeia com maior ênfase ideológica durante o carnaval da cidade do Salvador, a forma como as relações étnicas e de gênero se configuram dentro dos espaços carnavalescos, os mitos do carnaval, a indústria do sexo, a resistência de alguns grupos étnicos, antes minoritários, que hoje ocupam lugares de excelência dentro destes espaços e, principalmente, a forma como tudo isso influencia a sociedade no cotidiano de suas práticas sociais.

Ressignificando a idéia de que o carnaval na Bahia se limita apenas aos espaços mais tradicionais e institucionais da festa, nos preocupamos, também, em traçar uma linha histórica sobre os espaços alternativos da folia, observando que desde a década de setenta são introduzidos novos elementos, inspirados por artistas de vanguarda como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Novos Baianos, que trarão a partir dali novos significados e novos espaços para o centro dos festejos. Nos dias atuais tudo isso é refletido nos vários palcos alternativos que são instalados no circuito da festa, onde se pode prestigiar artistas antes não muito comuns à estética carnavalesca. Isso irá dar um sentido maior ao multipluralismo que norteiam os signos do carnaval.

Penso que a importância de se trabalhar um tema como esse em sala de aula está perceptível na forma como podemos entender as relações sociais a partir do mesmo; como os valores morais, religiosos, políticos e humanos se configuram em determinadas instâncias da festa e até onde estas reinvenções de valores interferem no cotidiano das sociedades fora desses espaços. Percebe-se também que os interesses político-sociais, que por trás da folia, erguem-se travestidos de seus investimentos midiáticos, envolvem cada vez mais a festa carnavalesca, que em seu surgimento mais remoto servia apenas para animar o povo, numa divertida brincadeira sob os olhos do Estado.

[1] Maia Júnior, Eduardo Carlos Ferreira. Graduando em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V. 2010.

Letras de Músicas Utilizadas na Oficina

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Algumas Imagens Utilizadas na Oficina

Bahia, Salvador, Praça 2 de Julho ou Campo Grande, desfile do Clube
Carnavalesco Cruz Vermelha no Carnaval de 1952.
Bahia, Salvador, Clube Cruz Vermelha, Carnaval de 1963.
Bahia, Salvador, Clube Cruz Vermelha, Carnaval de 1955
O Entrudo no Rio de Janeiro, 1823
Ilustração retirada do Jornal O Malho, 1911

Vídeos Utilizados na Oficina


Montagem que recorta parte das falas de Glauber Rocha e Caetano Veloso, respectivamente no documentárioManifesto: "Uma Estética da Fome" e no III Festival Internacional da Canção (Fase Nacional), em 68 – TV Globo. (Vídeo usado para análise da idéia de Alienação com base na propagação da imagem de baianidade e de brasilidade exploradas nas propagandas referentes ao carnaval.)



Imagens do carnaval do Rio de Janeiro, 1955, vídeo produzido pela Warner Bros. Pictures.

Bibliografia

Artigos

BRITTO, Reynivaldo. Escola tricampeã já se prepara para o tetracampeonato em 72. A Tarde, Salvador, 9 mar. 1971. Caderno 1, p.09

CUNHA, M. C. P. A capital cai na folia. Nossa História (São Paulo), v. ano 2, p. 18-24, 2005.

CUNHA, M. C. P. Veneza, África, Babel: leituras republicanas, tradições coloniais e imagens do carnaval carioca. In: I. Iancsó. (Org.). Anais do Seminário internacional "Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa" (no prelo). São Paulo: Ática, 2000, pp. 55-72

GODI, Antônio Jorge Victor dos Santos. De Índio a Negro, ou o Reverso. Cadernos do CRH. Salvador, 1991. p. 51-70.

GUERREIRO, Goli. A Cidade Imaginada - Salvador sob o olhar do turismo. Gestão & Planejamento (Salvador), Salvador, v. Ano 6, n. Vol. 11, p. 06-22, 2005.

JUNIOR, Rosalvo. Dodô não morreu, ele fica nos exemplos deixados. Diário de Notícias, Salvador, 18-19 jun. 1978, p.12

OURA, Milton . Um Mapa Político do Carnaval: Reflexão a partir do Caso de Salvador. In: Milton Esteves Júnior; Urpi Montoya Uriarte. (Org.). Panoramas Urbanos: Reflexões sobre a Cidade. Salvador: EDUFBA, 2008, v. , p. 93-106.

PELLEGRINO, Antonio Roberto. Crônica do Carnaval: O Carnaval de Ontem. Diário de Notícias, Salvador, 9-12 set. 1975. Caderno 2, p.7

PRIORE, M. L. M. Outros Carnavais. Nossa História (São Paulo), São Paulo, v. 2, n. 16, 2005

REIS, J. J. . Tambores e Tremores: A Festa Negra na Bahia na Primeira Metade do Século XIX. In: Maria Clementina Pereira Cunha. (Org.). Carnavais e Outras F(r)estas. Ensaios de História Social da Cultura. 1 ed. São Paulo: UNICAMP/CECULT, 2002, v. 1, p. 101-155.

RIBARD, F. P. G. . Corpos na Folia: Memória e Festa Negra. In: Maia Cavalcante, Maria Juraci; Fernandes de Queiroz, Zuleide; Paula Vasconcelos Júnior, Raimundo Elmo de; Costa de Araujo, José Edvar. (Org.). História da educação. Vitrais da Memória. Lugares, imagens e práticas culturais. Fortaleza: Edições UFC, 2008, v. , p. 114-126.


Livros, dissertações e teses



CUNHA, M. C. P. Ecos da folia. Uma história social do carnaval carioca entre1880 e 1920. 1ª. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. 396 p

CUNHA, M. C. P. (Org.). Carnavais e outras f(r)estas. 1. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2002. v. 1. 447 p.

VIANNA, Hildegardes. Breve notícia sobre acontecimentos na Bahia, no inicio do século XX. Salvador: Centro de estudos Baianos da UFBA, 1983

VIEIRA FILHO, Raphael Rodriguez. A africanização no carnaval de salvador, Ba - a recriação do espaço carnavalesco(1876-1980).Dissertação (mestrado em história). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 1995.


Fontes

Jornais

“Filhos de Gandi” volta e mostra que não morreu. Diário de Notícias, Salvador, 8-9 fev. 1976. Caderno 1, p.3

“Ilê Ayiê”, um bloco de raça aberta a gente de qualquer cor. Jornal da Bahia, Salvador, 24 fev. 1975. Caderno 2, p.1

Apaches: Uma festa de cores com 3500 homens na avenida. Jornal da Bahia, Salvador, 2 fev. 1975. Caderno 2, p.3

Arquibancadas, uma ameaça ao Carnaval da Rua Chile. A Tarde, Salvador. ? dez. 1975. Caderno 1, p.3

Carnaval: Elétrico. Correio da Bahia, Salvador, 22 fev. 1979. Caderno Cidade, p.1

Debate: Até que ponto é viável a extinção das escolas de samba? A Tarde, Salvador, 28 fev. 1973, p.12

Depois de uma apuração complicada, saem os novos campeões do Carnaval. Tribuna da Bahia, Salvador, 10 fev. 1978, p.5

Ex-presidente da escola de samba Diplomatas de Amaralina desabafa. A Tarde, Salvador, 21 fev. 1973, Caderno 2, p.13

Jubileu do trio elétrico, despedida de Dodô e Osmar. Diário de Notícias, Salvador, 6-17 out. 1974. Caderno 1, p.03

Não existe Carnaval sem música. Tribuna da Bahia, Salvador, 23 fev. 1976. Caderno 2, p.13

No trio elétrico de Dodô de Osmar. Tribuna da Bahia, Salvador, 11 fev. 1976. Caderno 2, p.11

Palanque será mesmo na praça municipal. Diário de Notícias, Salvador, 27 fev. 1973. Caderno 3, p.3

Povo encontra medida no Carnaval-participação. Jornal da Bahia/SHELL, Salvador, 21 abr. 1978, p.19-23

SUTURSA divulga programa oficial para o Carnaval. A Tarde, Salvador, 22 fev. 1973. Caderno 2, p.19

SUTURSA é contra as escolas de samba no Carnaval de Salvador. A Tarde, Salvador, 20 fev. 1973. Caderno 1, p.03

Trios-elétricos só tocarão em festas pré-carnavalescas. A Tarde, Salvador, 19 nov. 1975. Caderno 1, p.3

sexta-feira, 9 de abril de 2010

“O JEITO JAPONÊS DE SER BRASILEIRO (A)”: REFLEXÕES ACERCA DE UMA EXPERIÊNCIA DE OFICINA PEDAGÓGICA EM HISTÓRIA. Parte I

ORIENTE-se... O que acontece quando os opostos se encontram?


Aleí dos Santos Lima

Culinária, moda, comportamento... Elementos que sofreram alterações e/ou adaptações a partir do processo de trocas culturais com a presença dos/as imigrantes japoneses/as no Brasil. Nesse sentido, o presente texto busca compartilhar alguns resultados da oficina O jeito japonês de ser brasileiro/a: a imigração japonesa no município de Taperoá: BA, com base nas diferentes metodologias utilizadas no desenvolvimento desse projeto.

É importante destacar que entendemos a oficina enquanto lugar de produção, manufatura, construção e reconstrução, onde, no sentido prático do termo, “se põe a mão na massa”. E assim fizemos ao articularmos o ensino de história à gastronomia e à arte japonesa como maneira de favorecer o entendimento desse intercâmbio cultural através de uma experiência lúdica. Em todas as atividades propostas, valorizamos como ponto de partida, as impressões iniciais do público alvo (alunos e alunas do 1º Ano do Ensino Médio, do Colégio Modelo da cidade de Santo Antônio de Jesus) acerca dos orientes e, especificamente, do universo japonês.

Ensinar História é trabalhar com identidades e, por que não com a formação de sujeitos que desempenham distintos papéis na vida e na sociedade. Portanto, é imprescindível a promoção de propostas pedagógicas que integrem a reflexão com a ação de forma atraente, didática e contextualizada com a realidade dos educandos. Na nossa experiência, valorizar o conhecimento espontâneo dos/das aluno/as através da elaboração de mapas mentais se constituiu como meio de relacionar os acontecimentos cotidianos com o conhecimento cientifico da temática sob análise.

Num primeiro momento, discutir o processo da imigração japonesa no Brasil e na Bahia, especificamente em Taperoá, gerouestranheza por parte dos alunos, pois as contribuições das diferentes sociedades do Oriente para a história mundial, por vezes, lhes eram apresentadas de maneira exóticas e fantásticas, na opinião dos mesmos. No entanto, os recursos utilizados possibilitaram a participação e assiduidade do aluando nas aulas e, conseqüentemente resultados bastante significativos em relação ao seu aprendizado.

Concluímos que a oficina é uma realidade complexa que exige planejamento e dedicação, mas que pode ser muito bem empreendida na perspectiva da educação histórica. Podemos afirmar que o nosso trabalho oscilou entre o diferente e o apaixonante seja pelas provocações que envolvem o tema escolhido ou mesmo pela inquietude de mesclar ensino-aprendizagem com atratividade.



“O JEITO JAPONÊS DE SER BRASILEIRO (A)”: reflexões acerca de uma experiência de oficina pedagógica em História.

Daniela Watanabe

A experiência que trazemos para reflexão no presente texto diz respeito à oficina pedagógica O jeito japonês de ser brasileiro/a,realizada entre os dias 09 e 12 de novembro de 2009, cuja proposta foi discutir a imigração japonesa no território nacional, priorizando a experiência desse processo no município de Taperoá-BA, por volta da segunda metade do século XX. Planejamento, pesquisas e muita dedicação foram fundamentais para a concretização desse ousado projeto. Com a finalidade de realizar uma transposição didática de forma mais atraente e significativa - além das aulas no ambiente escolar - foi desenvolvida uma aula de campo, que se configurou como um momento especial do nosso estágio.

Assim, a preocupação constante no planejamento das aulas foi pensar numa proposta de ensino que instigasse a curiosidade dos/as discentes e, dessa maneira, tornasse mais fluente a compreensão do conteúdo abordado. A especificidade da temática e a resistência que se percebe em relação ao ensino de história foram problemáticas que influenciaram de modo preponderante as nossas escolhas, sobretudo porque os acontecimentos discutidos envolviam, diretamente, a história de dois países – Japão e Brasil. Desse modo, a aula de campo foi uma estratégia metodológica extremamente rica para nossa oficina, uma vez que possibilitou uma multiplicidade de saberes e abordagens que foram além do planejamento inicial; foi como se o conhecimento se tornasse mais concreto, mais próximo, mais “vivo”.

As experiências oriundas dessa oficina, não somente em relação à visita de campo como também às outras metodologias utilizadas - oficina gastronômica, mostra de filme, aulas expositivas, entre outras – nos sugere que é possível ensinar/aprender história a partir de diferentes aspectos e não somente sob as “convencionais” análises político-econômicas. As discussões, por exemplo, sobre as relações de gênero– com ênfase nos papéis sociais das mulheres nipônicas - e as transformações e permanências dessa dimensão cultural após a imigração para o Brasil ressoaram de maneira significativa sobre alguns estereótipos que os/as alunos/as possuíam acerca das japonesas e nipo-brasileiras. As linguagens dos comportamentos dessas orientais foram analisadas considerando a imigração como elemento de transformações culturais, uma vez que os modos de ser de muitas nipônicas foram alterados em contato com os costumes brasileiros. Foi possível, assim, reavaliar os imaginários relacionados ao exótico, à obediência, atribuídos a essas mulheres, a partir do contato direto (durante a aula de campo) com algumas japonesas que vieram para o Brasil e, em função das circunstâncias, tiveram que adaptar seus costumes. Esse momento de troca de experiências com as nipônicas residentes em Taperoá-Ba deu um sentido singular às nossas abordagens e ao entendimento dos/s discentes, ao articular o ensino sistemático às diferentes histórias de pessoas anônimas para os livros, mas, que de alguma maneira contribuíram para que tivéssemos acesso a um trecho da história da imigração japonesa na Bahia, que é tão pouco divulgada.


TEXTO: 1

A presença japonesa em Taperoá-BA[1]

Taperoá é um dos municípios que compõem a microrregião do Baixo Sul da Bahia, na Costa do Dendê. Trata-se de um pequeno ponto no mapa baiano com uma extensão territorial 410.175 Km² na qual, segundo o IBGE, está distribuída uma população de 18.000 habitantes. A formação étnica desse município tem contribuições dos povos ameríndios, dos negros, e, minoritariamente, de irlandeses, portugueses e japoneses.

A influência nipônica é, entretanto, mais recente em relação às demais culturas, sendo que a primeira família japonesa a se instalar em terras taperoenses chegou em 1972. Tal evento veio a se repetir com a chegada de outras famílias, que se deslocaram de Tomé-Açu, no Pará – onde a produção da pimenta-do-reino, seu principal produto, estava em decadência - movidas por promessas de melhoria de vida nas terras “férteis” do interior baiano.

Assim como os pioneiros da imigração japonesa no Brasil, que com sonhos de reconstituição de suas vidas se propuseram a trabalhar nas distantes terras tropicais, estas com valores, cultura e clima bastante distintos dos seus, os “nipônicos nascidos no Brasil” também se lançaram ao desafio de buscar melhores condições de vida, mas, no próprio território brasileiro.

Entre os anos de 1974 e 1975 chegaram a esse município, cerca de trinta e cinco famílias japonesas, fato que influenciou a vida social, cultural e agrícola local. Com a finalidade de manterem vivos os traços da sua cultura no interior baiano, é criada na década de oitenta a Associação Nippo-Brasileira de Taperoá. Tal organização permitia aos nipônicos reunirem-se para momentos de lazer bem como para construírem estratégias de melhorias para suas vidas.

A diversificação das técnicas para o cultivo da terra foi uma das principais contribuições dos japoneses e japonesas para Taperoá. Nesse particular, destaca-se ainda a inserção de outras culturas agrícolas, a exemplo da pimenta-do-reino, da pimenta-jamaica, do cupuaçu, do rambutã, do mangostão, entre outras.



[1] WATANABE, Daniela Lumi N. Graduanda em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V. A influência nipônica na experiência camponesa no município de Taperoá-Ba, na primeira metade da década de 1970. Projeto de Pesquisa. Agosto de 2009.


“O JEITO JAPONÊS DE SER BRASILEIRO (A)”: REFLEXÕES ACERCA DE UMA EXPERIÊNCIA DE OFICINA PEDAGÓGICA EM HISTÓRIA. Parte II

TEXTO: 2.

Os/as nipônicos/as foram PARÁ... LÁ![1]

Há pouco mais de um século iniciou-se a imigração japonesa ao Brasil, com o desembarque de 781 famílias no porto de Santos, em 18 de junho de 1908. “Café é árvore em que se colhe ouro com as mãos”. A publicidade divulgava o Brasil no Japão como um país economicamente promissor, um verdadeiro “paraíso” de trabalho. Em busca do enriquecimento rápido, os nipônicos se propuseram a enfrentar 52 dias de viagem no navio Kasato Maru para trabalharem em solo tropical e retornarem – bem sucedidos - após alguns anos à terra natal. Frustração. Esse foi o sentimento dos japoneses ao se depararem com a realidade das lavouras cafeeiras: péssimas condições de vida, doenças e árduo trabalho sem o retorno financeiro esperado e divulgado pela publicidade, além da queda na produção.

O governo japonês, porém, pretendia ampliar a presença japonesa no território brasileiro, esta até então, restrita a São Paulo. Assim, se propôs a explorar a inóspita selva Amazônica e em 1929 foi concedida pelo governo local à Companhia de Plantação do Brasil, a Nantaku, 1,3 milhão de hectares em cinco áreas do Pará. Das colônias formadas nessa região, a mais importante foi a de Acará (Tomé Açu), na qual, no período de oito anos foram enviados 2.100 japoneses para transformar a floresta em áreas produtivas.

“A Terra da Pimenta”, como ficou conhecida Tomé-Açu, até a segunda metade da década de sessenta, era responsável por 40% da produção desse produto no Brasil, sendo considerado, pela primeira vez, produtor mundial de pimenta-do-reino. Em 1966 foram identificados os primeiros casos ocorrência de doenças nos pés de pimenta (o micróbiofusarium provocava o apodrecimento das raízes da planta), mas, foi por volta de 1974 que esse problema, associado à desvalorização econômica desse produto, à crise mundial e à precipitação pluvial irregular afetou decisivamente o cultivo em Tomé-Açu.

Assim, já nos primeiros anos da década de setenta, em função da crise que ocasionou uma contração significativa no volume de produção, a monocultura da pimenta cedeu lugar ao incentivo do cultivo diversificado de produtos agrícolas. Conforme os Relatos Históricos da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu – CAMTA (2009, p. 47), já nos anos de 1950, quando 95% dos cooperados estavam subordinados à produção exclusiva da pimenta, “a Cooperativa estimulava para que partissem para policultura e assim, precaverem-se contra as flutuações de preços do mercado. Esta necessidade se tornou premente com a aparição da doença”.

Enquanto grande parte da colônia japonesa de Tomé-Açu apostou numa estratégia alternativa à monocultura da pimenta, com o plantio de outras culturas agrícolas, a exemplo do cacau e do maracujá, visando a estabilização da agricultura, algumas famílias arriscaram-se em outro caminho, depositando esperanças de melhores dias em outro lugar: a Bahia.



[1] WATANABE, Daniela Lumi N. Graduanda em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus V. A influência nipônica na experiência camponesa no município de Taperoá-Ba, na primeira metade da década de 1970. Projeto de Pesquisa. Agosto de 2009.


FILME: MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA.

SINOPSE

GUEIXA, Memórias de. Produção: Lucy Fisher, Steven Spielberg e Douglas Wick. Direção: Rob Marshall. Intérpretes: Zhang Ziyi, Ken Watanabe, Michelle Yeoh, Gong Li, Koji Yakusho, Youki Kudoh.Roteiro: Robin Swincord. Gênero: Romance. Estados Unidos: Columbia Pictures Corporations, 2005. Duração:145 min. Baseado em livro de mesmo nome, de Arthur Golden.

Sinopse:

Baseado no romance internacionalmente aclamado de Arthur Golden, Memórias de uma Gueixa é um épico romântico arrebatador que tem lugar em um mundo misterioso e exótico que ainda hoje exerce grande fascínio. A história começa nos anos que antecedem a II Guerra Mundial quando uma criança japonesa, sem um tostão sequer, é separada de seus pais para trabalhar como empregada em uma casa de gueixas. A despeito de sua traiçoeira rival, que quase consegue alquebrar sua alma, a menina floresce e se torna a legendária gueixa Sayuri (Ziyi Zhang). Linda e completa, Sayuri conquista o homem mais poderoso de seu tempo, mas é assombrada pelo secreto amor que nutre por um homem que está fora de seu alcance (Ken Watanabe)


RECEITA DE TEMPURA.

Sabor: CAMARAO.

Em japonês てんぷら ou 天麩羅, tenpura. A tempura foi introduzida no Japão por missionáriosportugueses e espanhóis, durante o século XVI. A palavra tempura poderia ter sido derivada tanto da palavra portuguesatempero” (ou do verbo temperar), como de “têmporas”, nome que designa os períodos de jejum realizados no catolicismo, tais como a Quaresma (chamada em latim de uadragésima tempora), onde tradicionalmente os fiéis se abstinham do consumo de carnes, preferindo comer vegetais e peixes. Fonte: http://pt.wikipedia.org. Acesso em: 22 de outubro de 2009.


Ingredientes

· 1 kg de camarão limpo

· Alho, condimento de pimenta-do-reino, sal para temperar o camarão

· 1 ovo inteiro

· 10 colheres de farinha de trigo

· 1 Colher (sopa) de tempero de peixe em pó. Sugestão: TemperoHondashi. (Pode ser substituído por 1 envelope de sazon vermelho ousazon para peixe)

· Óleo para fritar

· Tempero verde: Cebolinha e coentro a gosto

· 2 cenouras, 2 batatas, 1 cebola e 1 pimentão grandes.

Modo de preparar

1. Tempere o camarão com alho, o condimento de pimenta-do-reino e o sal. Reserve.

2. Cortar as batatas, as cenouras, a cebola e o pimentão em tiras finas.

3. Cortar o coentro e a cebolinha.

4. Bata os ovos inteiros até ficar homogêneo acrescente uma pitada de sal, o tempero de peixe em pó, a farinha de trigo, o tempero verde e os legumes.

5. Mergulhe aos poucos o camarão nessa massa e frite em óleo quente.

6. Quando dourar a massa, retire com uma escumadeira e escorra em toalha de papel absorvente.

7. Sirva quente como tira gosto ou mesmo com arroz branco e molho de soja (Sugestão: Shoyu).


TEXTO: 3

Rosa X azul...[1]

Homem e mulher, o masculino e o feminino se constroem numa relação. Essa “construção” não está solta no tempo e no espaço e nem é universal. Isto é: gênero (masculino e feminino) é construído cultural e historicamente. Isso quer dizer que a maneira de ser masculina ou feminina numa sociedade varia conforme o contexto (a cultura e o momento histórico). [...].

Cada sociedade pensa o que é feminino e o que é masculino de um jeito. E não são apenas “homens e mulheres” que os seres humanos classificam como masculino e feminino. [...].

Mesmo como brincadeira de criança você nunca se pegou pensando se a faca é “feminina” ou “masculina”? Já que o “gênero” do garfo e da colher nos parece tão claro?

Não classificamos somente homens e mulheres como “masculino e feminino” e não são só as “outras sociedades” que atribuem “masculinidade” e “feminilidade a coisas além de pessoas. Se podemos aceitar poeticamente que “o cravo brigou com a rosa” é porque acreditamos na masculinidade de um e na feminilidade do outro, ou seja, da outra. [...].

Aprendemos, em nossa cultura, a associar rosa como feminino e azul como masculino. Provavelmente qualquer membro de nossa cultura faria essa associação. Provavelmente essa associação não faria sentido nenhum para um aborígene australiano ou um nativo da Nova Guiné. Isso porque são culturas diferentes! É para nossa cultura que rosa e azul têm esse significado!

Atualmente mesmo antes do nascimento, através da ultra-sonografia, é possível identificar o sexo dos bebês e, com isso, o bebê já começa a ser referido como ele ou ela, e ser “o dono” de roupas (eventualmente um quarto, móveis) femininas ou masculinas. Freqüentemente antes mesmo de nascer, já é escolhido o nome – masculino ou feminino. Ou seja, seu grupo social já vai construindo a identidade de gênero daquele novo membro.



[1] Adaptação da produção de MOTTA, Flávia M.. Gênero, sexualidade e educação (2ª ed.). In: Ari José Sartori; Néli Suzana Brito. (Org.). Gênero na educação: espaço para a diversidade. 2 ed. Florianópolis: Genus, 2006, v. , p. 121.


VÍDEOS DE MÚSICAS E FILMES UTILIZADOS NA OFICINA